“Três horas entre dois aviões”

“Três horas entre dois aviões”

de F. S. Fittzgerald

*

Adaptação para TEATRO por Sofia Guerreiro

Outubro de 2013

CENA I

EXT. ENTARDECER.

INTRODUÇÃO

Em palco, uma cadeira e nele um homem de perfil Atrás de si, um

grande e bonito céu ao entardecer é projectado.

HOMEM

(VOZ OFF)

– Havia apenas uma possibilidade em mil. Na verdade, até me sinto com sorte. Mesmo com um humor propício à tentativa. Fisicamente encontro-me em forma, mas um pouco enfadado, dominado pelo sentimento de dever cumprido. Quero oferecer a mim mesmo uma recompensa. Enfim, Talvez. Será que ela ainda está viva? residirá  ela na mesma cidade? ou mudara de nome? Decorreram vinte anos, desde…

No céu ao entardecer projectado, passa um avião.

TÍTULO

Três horas entre dois aviões

CENA III

INT. AEROPORTO.

O HOMEM levanta-se da cadeira, pega na sua sacola, saí, e desloca-se procurando localizar-se. Pessoas passam a seu lado. Uma leva a cadeira

que se encontra em palco. uma voz de mulher anuncia o próximo avião e

destino. uma outra pessoa transporta um livro, pára junto do HOMEM e

abre-o, expondo-o ao HOMEM. O HOMEM folheia o  livro. Uma outra pessoa passa transportando um telefone. pára. O HOMEM, marca os números e aguarda.

HOMEM

– Boa noite. A menina Nancy Holmes está?

Pelo lado direito do palco, encontra-se um sofá de dois lugares, uma

pequena mesa e um candeeiro. Por esse mesmo lado, entra uma MULHER;

NANCY,  a falar ao telefone, responde à chamada e acende o candeeiro. numa pequena mesa, um copo meio cheio de vinho.

MULHER

Em tom de voz divertido.

– Nancy é agora Sra. Walter Gifford. Quem fala?

HOMEM

Desliga o telefone. Folheia mais uma vez a lista telefónica. Marca os números de telefone, e espera que novamente atendam.

MULHER

– Está?

HOMEM

– Está? A Sra. Gifford está? Fala um dos seus velhos amigos.

MULHER

– Sou a Sra. Gifford.

No palco os dois figurinos partem. Um com o livro de endereços e o

outro, com o telefone. DONALD fica em palco falando com NANCY.

HOMEM

– Sou Donald Plant. Não a vejo desde os meus doze anos.

MULHER

Surpresa.

– Oh!

Pausa

– Donald! … E quando voltou à cidade?

Em tom cordial.

– Onde está?

HOMEM

– No aeroporto. Durante algumas horas somente.

MULHER

– Então venha ver-me.

HOMEM

– Mas não se preparava para se ir deitar?

MULHER

– Por Deus, não! Não fazia nada. Bebia, completamente só. Diga ao

motorista do táxi…

CENA IV

EXT. NOITE. RUA HABITACIONAL.

Da extremidade da porta entreaberta, e iluminada pela luz interior,

está uma mulher com um copo na mão. Sobre esta batem as luzes de um carro.

HOMEM

Emocionado por a ver.

– Sra. Gifford?

MULHER

– Donald? É mesmo você? Nós mudamos tanto! Oh! É formidável!

CENA V

INT. CASA.

HOMEM E MULHER

Quando entravam em casa as suas vozes fazem ressoar as palavras:

– Há tantos anos.

CENA VI

EXT. RUA.

FLASHBACK

Em criança, NANCY, passa por DONALD, e fazendo que não o vê, ajeita o

cabelo.

CENA VII

INT. CASA.

HOMEM

– Você sempre foi muito bonita. Mas estou um pouco perturbado por a ver ainda tão bela.

MULHER

Interessada.

– Quer beber um copo? … Não? Por favor, não pense que costumo beber

com frequência às escondidas, mas esta noite sentia certa neurastenia.

Esperava o meu marido, mas ele telegrafou-me a dizer que só voltaria

dentro de dois dias. Ele é muito gentil, Donald, muito sedutor. Um pouco

do seu género, com  as mesmas cores.

Hesitante.

– E creio que está interessado por alguém em Nova Iorque. Mas não estou

certa.

HOMEM

– Depois de a ver, isso parece-me impossível. Estou casado há seis

anos, e houve um tempo em que me torturava da mesma maneira. Depois,

um dia afastei o ciúme da minha vida. Para sempre. E após a morte da

minha mulher felicitei-me por isso. Não me restavam senão recordações

muito belas, que nada fazia desvanecer.

Ele olha para a mulher com simpatia.

MULHER

– Sinto muito

Pausa.

– Você mudou muito… Recordo-me de que o meu pai dizia: “Este rapaz tem

miolos.”

HOMEM

– E você protestava sem dúvida.

MULHER

– Ficava muito impressionada. Até aí pensara que toda a gente tinha

miolos. Por isso nunca me esqueci desta frase.

HOMEM

Sorrindo pergunta:

– Que outras coisas já  mais esqueceu?

MULHER

Ergue-se e dá alguns passos.

– Ah! isso não é justo! suponho que era uma rapariga endiabrada.

HOMEM

– De modo nenhum! E acho que sempre vou beber um copo.

A MULHER, NANCY; serve um copo de vinho..

HOMEM

– Crê que foi a única pequena que se deixou beijar?

MULHER

Irritada.

– Não se importa de mudar de assunto?

Divertida.

– Que diabo, divertimo-nos muito! Como na canção.

HOMEM

– No passeio de bicicleta, naquele inverno.

MULHER

– Sim… e o piquenique de… de Trudy James. E em Frontenac naqueles… verões.

CENA VIII

EXT. RUA. DIA. INVERNO.

FLASHBACK

Os dois em criança, passeiam de bicicleta.

CENA IX

EXT. RUA. NOITE.

FLASHBACK

DONALD beija as faces de NANCY. NANCY ri e olha as estrelas. Outro casal deixa-os. Donald beija o seu pescoço e as orelhas.

CENA X

INT. CASA.

HOMEM

– E a reunião em casa do Mack, onde toda a gente brincou aos correios e à qual não pude ir porque tive sarampo.

MULHER

– Não me recordo.

HOMEM

– Oh, sim, você esteve lá. E alguém a beijou e eu fiquei louco de

ciúmes, como nunca.

MULHER

– É curioso, mas não me recordo. Isso talvez porque quis esquecer.

HOMEM

Em tom divertido.

– Mas porquê? Nós éramos jovens perfeitamente inocentes. Nancy, todas

as vezes que falava do passado à minha mulher, dizia que a tinha amado

a si quase tanto como a amava a ela. Mas creio que a amei a si tanto

como a amei a ela. Quando abandonámos a cidade, eu levava-a em mim

como uma bala nas entranhas.

MULHER

– Você ia assim tão… perturbado?

HOMEM

– Meu Deus, sim!

Encontram-se a menos de um metro um do outro. Nancy olha para Donald, com lábios entreabertos.

MULHER

– Continue. Tenho vergonha de o dizer mas gosto. Não sabia que você

nesse tempo estava tão perturbado. Supunha que isso se passava apenas

comigo.

HOMEM

– Consigo! Você não se recorda da maneira como me mandou passear na

cafetaria?

Ri.

– Você deitou-me a língua de fora.

MULHER

– Não me recordo desse facto. Parece-me que foi você  que me mandou

passear a mim.

Pousa a mão sobre o braço de Donald.

– Tenho lá em cima um álbum de fotografias que já não vejo há anos.

Vou procurá-lo.

NANCY; pega num remoto controlo e clica nele. Do tecto, por um fio, desce um álbum de fotografias.

FOCO DE LUZ INCIDE SOBRE OS DOIS.

DONALD e NANCY; estão lado a lado no sofá. Nancy tem o álbum no seu colo.

MULHER

Feliz.

–  Oh, é tão divertido! Tão divertido que você seja gentil, que guarde de mim recordações tão belas. Vou dizer-lhe uma coisa: se ao menos tivesse sabido tudo isso. Depois de você ter partido, detestei-o.

HOMEM

– Que pena.

MULHER

Tranquilizando-o.

– Mas já não o detesto.

– Beijemo-nos e façamos as pazes.

NANCY e DONALD beijam-se.

MULHER

– Não me comportei como uma boa esposa. Não creio ter beijado mais de

dois homens após o meu casamento.

Volta a cabeça e abre o álbum

HOMEM

– Espere. Não me sinto ainda capaz de ver uma fotografia, durante

alguns segundos.

MULHER

– Não nos beijaremos mais. Eu própria não me sinto também muito calma.

HOMEM

– Não seria terrível que nós nos apaixonássemos um pelo outro uma vez

mais?

MULHER

– Não diga isso!

Ri. Nervosismo.

– Acabou-se. Isso não passou de um instante. um instante que terei de esquecer.

HOMEM

– Não fale disto ao seu marido.

MULHER

– Porquê? Habitualmente conto-lhe tudo.

HOMEM

– Isso feri-lo-ia. Não conte jamais coisas destas a um homem.

MULHER

– Bem, nada direi.

HOMEM

– Beije-me uma vez mais.

MULHER

Volta uma página do álbum e exclama.

– Cá está você! Encontrei-o logo!

DONALD, olha para para a foto.

PLANO DE PORMENOR

FOTOGRAFIA

Rapaz com 12 anos.

MULHER

– Recordo-me do dia em que esta fotografia foi tirada. Era a Kitty que

a tinha e eu roubei-lha.

HOMEM

Olhando a fotografia mais de perto.

– Não sou eu.

PLANO DE PORMENOR

FOTOGRAFIA

Rosto do rapaz que está na fotografia.

MULHER

– Oh, sim. Foi em Frontenac, no Verão… e nós costumávamos ir à gruta.

HOMEM

– Que gruta? Nunca passei mais de três dias em Frontenac.

De novo, examina a fotografia levemente amarelecida.

– Não sou eu. É Donald Bowers. Parecemos um pouco, é verdade.

MULHER

Olha-o fixamente e recua um pouco no sofá.

– Mas você é Donald Bowers!

Em tom de voz elevado

– Não, você é Donald Plant!

HOMEM

– Eu disse-lho ao telefone.

MULHER

– Plant! Bowers! Devo estar louca! Ou então bebi de mais. Fiquei um pouco perturbada quando o vi. Escute! Que lhe contei eu?

HOMEM

Calmo. Folheia o álbum

– Absolutamente nada.

PLANO DE PORMENOR

FOTOGRAFIAS

Frontenac; Gruta; Donald Bowers.

HOMEM

– Foi você quem me repeliu.

MULHER

Do outro lado da sala.

– Não conte esta história a ninguém. Estas coisas costumam espalhar-se rapidamente.

HOMEM

Hesitante.

– Não tenho história para contar.

Sussurra.

– Então ela sempre era uma rapariga endiabrada.

Bruscamente ajoelha-se perto da cadeira de Nancy.Pousa a mão sobre o seu

ombro.

– Beije-me uma vez mais, Nancy.

MULHER

Afasta-se.

– Você disse que tinha de apanhar outro avião.

HOMEM

– Não tem importância. Posso perdê-lo.

MULHER

– Parta, suplico-lhe. E, por favor, tente imaginar o que sinto.

HOMEM

– Mas você comporta-se como se não se recordasse de mim.

Grita.

– Como se não se recordasse de mim, Donald Plant!

MULHER

– O número da praça de táxis é Crestwood 8484.

Em palco a luz do candeeiro é desligada. Os actores saem do palco.

MÚSICA

Alpha – Sometime Later, Álbum (ComeFromHeaven) 1997.

CENA XI

INT. NOITE. TÁXI.

DONALD no interior do táxi.

Imagens da cidade à noite.

CENA XII

INT. CASA / BAR.

TRAVELING

Fotografia de rapaz com 12 anos cai no chão.

Pormenores da casa de Nancy: Nancy apanha foto caída no chão. Fecha álbum de fotografias. Apanha os 2 copos sujos de vinho.

Serve-se whisky num copo com gelo. Pormenor de Donald Plant num Bar:

CENA XIII

EXT. NOITE.

TRAVELLING

Donald Plant sozinho anda pelas ruas da cidade à noite..

Desfoque sobre as luzes.

Foque sobre luz de avião.

Avião a descolar.

Céu estrelado.

FIM

Sofia Guerreiro

2ª versão 09.11.2013

Faro

 

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